TROPYKAOS - um filme de Daniel Lisboa

5 de Novembro, 2015

Na última terça-feira assisti o longa Tropykaos na 39ª mostra de cinema internacional de SP e fiquei impressionada.

É como se Michael Poiccard, personagem de Jean-Paul Belmondo em Acossado, de Godard, tivesse dito para o próprio Daniel Lisboa sua última frase: “você é a escória”. E desse desaforo/desafio ele tirou, como quem se deixa estar predestinado, toda sua razão para fazer cinema. Tropykaos pode não ser um filme sobre a escória, mas é um excelente retrato desse lado de uma cidade que é símbolo da ideia de “terceiro mundo”- se é que ainda se pode usar essa expressão, tão desconexa quanto a própria estrutura da cidade. Tem ali uma elaboração da decadência física, moral e social de Salvador, das ruínas de uma cidade em declínio e de uma sociedade em colapso, em que o auge dessa doença (ou dessa febre terminal) é a própria carnavalização da desgraça – que é inevitavelmente ruim, sem falsas esperanças ou otimismos freirianos. Ao mesmo tempo, não é preciso ser baiano ou soteropolitano para sacar isso, porque, ao menos para mim, ficou claríssimo que a mensagem do filme ultrapassa qualquer regionalismo e se coloca “universal” (entre muitas aspas) na questão que a personagem principal enfrenta, no modo como ele enfrenta.

Guima é o pagador de promessas de um futuro que já chegou. Ele não busca a redenção, mas sucumbe ao pecado da humanidade: “Doutora, eu não estou geneticamente adaptado para viver nessa cidade”. Guima caminha por um território historicamente dividido, em parte vazio, em parte parte cheio, e ninguém o acompanha. Nisso ele revive os esqueletos da cidade: morta e abandonada como um terreno baldio, por um lado; e por outro, relegada à falsa consciência de que seu povo está espiritualmente agarrado a uma essência de força interior que o faz sobreviver na sua penúria. Guima, como o “pequeno burguês”, como ele é apresentado pela sinopse do filme, está no limiar. Tanto no como ele se insere no contexto social, quanto na sua circulação pela paisagem urbana. A opressão está em toda parte: nos corredores de ares-condicionados ruidosos que se empilham em prédios altos que sufocam as ruas, no suor que escorre nas praias super cheias, oleosas e sujas do calor ou no vazio de ruas que ninguém quer andar, à beira do comércio feroz, na violência verbal dos trabalhadores, na estrutura de poder que constrói o carnaval e na miséria do achar que a felicidade é um dom natural.  Enquanto Guima transpira, cada gota que sai de sua enfermidade parece ir de encontro à liberdade. 

Em segundo lugar, há um diálogo óbvio do filme com a história/“tradição” do cinema baiano que é esperto e inusitado: se coloca em contato com o que foi construído no cinema novo e marginal, mas não buscando fazer algo que venha na esteira desses filmes. É como uma relação de influência, respeito e superação. As construções de certas cenas me pareceram homenagens: como uma das primeiras, de Guima em seu quarto sentado no colchão, em que me lembrei na hora de Meteorango Kid. Me lembrei também de Pátio, de Terra em transe e Idade da terra, de Glauber Rocha (e vários outros filmes das décadas de 1960/70 que pensei ontem e já não consigo lembrar agora).  Quando Edgar Navarro apareceu, tive certeza de que havia ali um porquê e uma relação nada ingênuos entre estas supostas citações, mas o importante é que o filme encontra seu próprio caminho nas cenas e nos diálogos.

Li por cima uma das críticas ao filme que relacionava seu título ao livro de Rogério Duarte e à grafia de Glauber Rocha. Confesso que quando saiu o anúncio do filme eu também não me conformava com o nome. E sempre achava que era porque ele iria nessa esteira do que a crítica coloca, até porque os textos que já li de Daniel Lisboa há um tempo atrás me lembravam também a verborragia de Glauber. Mas vendo o resultado do filme foi total outra a experiência.

Uma outra coisa também me chamou atenção:  Lisboa assina direção, roteiro e montagem. Tudo me pareceu muito bom, especialmente a montagem é muito boa, uma arte. Há cenas belíssimas e fortes (outras, que dão um ar pop/divertido pro filme, nem tanto - mas penso que aqui seja uma questão de gosto). Uma determinada cena me chamou atenção, de Guima atravessando a orla em convulsão com o contexto de configuração do espaço, do tempo e dos sons da rua, que é genial. Salvador tem um cenário muito marcado e esta cena me remeteu às fotografias de Pierre Verger (assim como as cenas na Ladeira da montanha me lembraram as fotografias de Voltaire Fraga, que são lindas).  São momentos em que a direção e a edição se mostraram primorosas, coroadas pela trilha especialíssima construída para o filme – e mais uma vez me lembrei das montagens de Glauber Rocha, por exemplo, em Pátio, que tem uma relação fundamental com a trilha de música concreta. Pela trilha, fotografia, roteiro e atuações, vê-se que Tropykaos reuniu a fina flor dos talentos de várias épocas próximas de Salvador. Uma “escória” criativa, vertiginosa, visceral e atuante.

Não sou toda elogios ao filme. Me incomodaram algumas frases de efeito inseridas no meio de diálogos e cenas, os quais o filme passaria bem sem. Fiquei pensando qual seria o lugar dessas frases, se elas contribuíam para uma atmosfera que facilitasse a captura do público. Gostaria de citá-las aqui, mas, agora que eu estou escrevendo, não consigo me lembrar de nenhuma como exemplo. O que comprova que no todo o filme vale muito a pena e recomendo a todos os meus amigos que assistam o mais rápido possível.

Página do filme no FB: https://www.facebook.com/filmetropykaos/?fref=ts

Tropykaos