Sobre o(s) Absurdo(s)

30 de Junho, 2016

Sambas, compositores, artistas e as mazelas do Brasil contemporâneo

 

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Escrevi este texto há 1 mês e meio atrás. Algumas das notícias conjunturais do Brasil mudaram extremamente rápido, de forma que nem tudo está atualizado aí. Mas optei por não modificar certas informações, pensando que elas são retratos seguidos do trevoso momento político que vivemos.

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Num período em que morava em Salvador, eu vivia uma vida boa e um tanto estressante por ter um carro e depender bastante dele no dia a dia. Nele eu carregava uma pasta de cds variados que um amigo me deu quando se hospedou lá em casa pro inesquecível carnaval da volta dos Novos Baianos (ainda que incompletos) na avenida (barra-ondina e campo grande). Mas nem sempre eu estava afim dos discos e escutava muito, mas muito mesmo a Educadora FM, porque além de tocar músicas que eu gostava, tocava músicos baianos contemporâneos no programa Radioca, tinha o programa de hip hop local, o das novidades africanas com Sankofa e especiais sobre a história da música com Perfilino Neto. E eu gostava sobretudo porque toda sexta-feira, às 18h, quando eu invariavelmente estava no trânsito do rio vermelho vendo o sol se pôr no retrovisor, tocava o Hino ao Senhor do Bonfim, ao invés da Ave Maria. Era lindo demais.

Nessa mesma época me chamou atenção uma campanha da rádio de valorização dos compositores. Depois da execução das canções nos programas ao longo do dia, eles sempre informavam ao ouvinte o nome dos compositores. Era interessantíssimo.

Os compositores, seus nomes e suas figuras me chamam muita atenção, porque eles nem sempre são os músicos e executores da canção ao qual deram a letra. Quando comecei este Tumblr, destaquei como Gui Amabis e suas letras me hipnotizavam pelas narrativas e temáticas que deslocavam o lugar comum cancioneiro. Hoje, quero voltar a falar dos compositores, destacando desta vez Nuno Ramos – ainda que muitos nomes me chamem também atenção, como Luciano Salvador Bahia, Marcos Sacramento, Luis Capucho, César Lacerda, etc, etc etc.

O nome de Nuno Ramos tem aparecido nas canções apresentadas pela maioria dos músicos que ouço com bastante frequência: Rômulo Froes, Rodrigo Campos, Mariana Aydar, Nina Becker… Mas Nuno não é um compositor imerso exclusivamente no meio musical. Formado em filosofia pela USP, foi através das artes plásticas que escutei seu nome pela primeira vez. E, depois, ele foi se configurando, na minha concepção, tal como o artista contemporâneo delineado na sociologia pragmática de Nathalie Heinich:  aquele cuja obra ultrapassa os limites do senso comum tanto como objeto de arte, como da arte em si, que possui um discurso escrito fortíssimo sobre sua obra, com mediadores igualmente capacitados a falar sobre ela e localiza-la em seu tempo e contexto.

A visão de Heinich se expande, se complexifica e se aproxima do que pretendo falar aqui, de alguma forma, com o livro (que já citei aqui no Poro Aberto no texto sobre Iago Mati) “Frutos estranhos: sobre a inespecificidade na estética contemporânea”, de Florencia Garramuño, que se inspira justamente na obra “Frutos estranhos” de Nuno Ramos, apresentada em 2010 no MAM –RJ. Para Garramuño, o desbordamento estético de Frutos Estranhos a torna um exemplo perfeito de como, na contemporaneidade, o diálogo entre diferentes linguagens e estilos está presente de forma fundadora e, ao mesmo tempo, fluida numa apresentação artística. Na literatura, por exemplo, é possível questionar ou não ver mais clareza entre a identificação de gêneros literários e o que vem sendo produzido, que não só mescla meios e linguagens, mas tem refeito o formato “literatura”, trazendo fragmentos heterogêneos de narrativas múltiplas.

Garramuño coloca que a inespecificidade estética do fragmento de objeto, ou o que sobra dele na obra de arte, pode ser vista como uma prática de não pertencimento, de rompimento daquelas mesmas fronteiras em que circula o artista, seu pensamento crítico e a realização deste. Questionar a especificidade de um meio, o que se dá não apenas no entrecruzamento entre diferentes linguagens e suportes, mas também no interior destes mesmos meios, é criar – ou enxergar - um horizonte infindo de possibilidades, criação e interpretação.

Ontem assisiti na Casa de Francisca, apresentado pela primeira vez,  o show “Sambas do absurdo”, que reuniu Rodrigo Campos, Juçara Marçal, Gui Amabis e Nuno Ramos (este não no palco, mas como autor de todas as letras cantadas). Segundo contou Rodrigo Campos durante o show, a ideia dos Sambas do Absurdo nasceu a partir da leitura do Mito de Sísifo, de Albert Camus, que o impressionou muito com a ideia de que a ação de Sísifo revela o sentido (ou a falta dele) no esforço em se viver. Daí decorre a tragicidade da vida. Pelo que apreendi, as letras corriam como flui o pensamento, como se se cantasse aquilo que se vê-pensa-reflete, tudo junto, quando se anda na rua, por exemplo. Mas essa é só uma impressão, porque não sou capaz de me lembrar sequer uma frase das canções que escutei ontem senão intuitivamente. E muito menos disponho delas aqui para reouvir e analisar. Mas como em muitas das letras de Nuno Ramos que conheço, elas funcionaram ali em melodias de samba.

Num texto escrito para a Folha de São Paulo em maio de 2014 (há dois anos, portanto) que intitulou “Suspeito que estamos…”, Ramos denunciou e refletiu, se colocando numa posição de não especialista, sobre mazelas que nos rondam, nos diminui e nos degrada enquanto sociedade. Ele cita a violência urbana, o caos administrativo e o desprezo pelo bem público, o cinismo midiático, as desigualdades sociais que vemos sendo cada dia mais aprofundadas e a dívida que temos com aqueles que sofrem cada uma destas ações -  como a parte mais frágil da corda que tenta-se puxar para o seu lado num cabo de guerra que sequer deveria ter sido iniciado: epítome do absurdo. Ao longo de uma lista de suspeitas que vão de pequenas e individuais mazelas a problemas macro estruturais, Ramos suspeita que “estamos fodidos”.

Uma vez, conversando com Paulo da Costa, que escreve textos que tanto me influenciam, ele me disse que Nuno Ramos era uma das pessoas cuja leitura mais o inspiravam – junto com Lorenzo Mammì, Antônio Risério, Walter Garcia e outros. Em um outro texto de Ramos, em que ele descreve sobre a experiência de apresentação da obra “Iluminai os terreiros” em Salvador (a mesma, porém outra Salvador que citei no início deste texto) e em Frankfurt, em 2015, fica mais uma vez claro como ele rejeita a romantização do caos e a glamurização do que há de pior nos escombros – físicos e humanos – que resultam da torta lógica capitalista que nos torna uma sociedade ainda mais massacrada e perversa do que já éramos ou somos.  No entanto, parece que é desse ceticismo realista que surge as suas mais belas composições artísticas, que destampam o fundo do poço e nos faz encarar a escuridão até ver o que tem dentro dela. Paulo da Costa escreveu, inspirado neste texto citado de Ramos, outro texto que chamou de “O desaparecimento do Brasil”. Nele, argumenta que não podemos perder a tradicional esperança antropológica no Brasil, cunhada do modernismo ao Tropicalismo. E diz que, aqui, a música popular é o nosso “grande reservatório mito-Brasil”, a “única força capaz de nos fazer recobrar as esperanças” e crer, como no Nietzsche que o próprio Paulo cita, que queremos ver no mito a própria ideia de comunidade. Ou seja, é uma outra forma de olhar que a de Ramos, mesmo que elas se inspirem num mesmo eixo.

Muitas das obras, canções e textos de Ramos desvelam camadas de desilusão. Parece condizer, então, vir dele sambas cantados sobre “o absurdo”. 

É interessante que, como artista, mas também como filósofo de formação, Nuno Ramos seja essa figura “completa” de intelectual: que pensa, que cria e que propõe diálogos abertos – tanto entre outros intelectuais interessados em pensar o Brasil, quanto entre artistas dispostos a pensar a forma e o conteúdo estéticos, como com o público que passa para ver suas obras.

Agora, alguns dias após o show, estou saindo para a Funarte-SP para ver o mesmos Gui Amabis, Romulo Froes, Catatau, Rodrigo Campos e outros cantando e ocupando o órgão do tão novo e (provisioriamente, quero eu acreditar) já extinto Ministério da Cultura. Creio que, nesse panorama desesperançoso, é preciso além de tudo presença. Por isso acredito ser importante ir apoiar uma ocupação mais do que legítima. Estando dentro de uma sociedade tão conturbada, eu não poderia mais do que defender aqueles que nos proporcionam, minimamente, modos de olhar para dentro de nós mesmo enquanto grupo nesse turbilhão. Se neste momento peremptório e temeroso, em que queremos crer num futuro em que veremos a construção de novos belos edifícios e uma responsável reconstrução de nossas ruínas, estes artistas são muito mais do que as vigas do nosso edifício em construção: são pedreiros e são pilares; são o prédio pronto e seus habitantes; são os belos croquis habitáveis de Lina Bo Bardi; são a superação da escrota relação entre o governo e a especulação imobiliária*; etc, etc etc.

* No texto citado de Ramos, publicado na Folha de São Paulo em maio de 2014, antes das eleições presidenciais, portanto, ele escreve algo muito condizente com nosso atual Temer (bad) Times, que reproduzo: “Quarteirões tombados tombando, de um lado; prédios totalmente desconectados da cidade (além de feios), sem cota nem propósito urbano, de outro. Suspeito que entre o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e a especulação imobiliária uma curiosa aliança esteja aos poucos se fazendo –ruínas orgulhosas copulando com despautérios azulejados de 30 andares.”. O Minc, ao menos no papel, voltou. O que será do Iphan ninguém sabe. Se o Golpe perdurará? Espero que o derrubemos.