Sê-Lo NetLabel: a música experimental do Brasil e do mundo via Bahia

26 de Janeiro, 2018

Já tem um tempo que venho querendo falar sobre o Sê-lo NetLabel aqui, por isto, neste texto, irei apresentar o trabalho que ele vem fazendo e sua repercussão. O selo criado pelo Edbrass Brasil, de Salvador, em 2015, tem se dedicado a lançar trabalhos de música inventiva e a produzir eventos relacionados à experimentação e improvisação, ampliando o circuito de apresentações deste tipo de música no Brasil. E, inclusive, formando um público, pois tem conseguido o feito monumental de unir artistas tanto do Brasil como de fora em seus eventos.

No catálogo do Sê-Lo tem free jazz, noise, sound art, além de outras propostas mais ligadas à canção. O primeiro lançamento foi o trabalho “Invocaçãoes”, de Orlando Pinho, em 2015. Em 2016, foram 6 outros lançamentos. E em 2017, foram 10 lançamentos importantíssimos de artistas nacionais e internacionais, dentre eles: Löuis Lancaster (Malva); George Christian (Exílios 1); Micah Gaugh (Stars are Harem); Bakim Hey (Solar das Telepatas); Bartolo ((E)spécies); 4zero4 (Aliquid); Sweet Desastre (Muzákna); SPIO (São Paulo Improvisers in Orchestra) com “ConductionBR#5” (2017); LOE LOF LON meets Wayne Rex; e o trabalho quem vem mais recebendo atenção, Rádio Diáspora 2, projeto de Rômulo Alexis e Wagner Ramos.

O primeiro volume de Radio Diáspora foi lançado pelo Sê-Lo em abril de 2016 e tem 8 faixas. Rômulo Alexis, trompetista e multiartista, um dos criadores do Circuito de Improvisação Livre em São Paulo, e Edbrass tem uma longa trajetória de colaborações. Uma delas é o projeto Interregno Trio, ao qual soma-se João Meirelles, e que é uma reunião dos três artistas para explorar as sonoridades do sopro, pesquisas sobre Walter Smetak, live electronics e composição instantânea. Em 2016 eles se apresentaram no Festival Novas Frequências no Rio de Janeiro.

 

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(Foto: Pérola Mathias | Novas Frequências)

O segundo volume do Radio Diáspora não passou desapercebido pelas listas de melhores discos de 2017 feitas pelos sites especializados em crítica musical. Foi destaque, por exemplo, no Floga-se. Além de uma crítica escrita por Fernando Augusto Lopes em agosto, o projeto foi votado como um dos melhores do ano por 3 dos editores convidados pelo site para realizar as listas. Ao lado de “Rádio Diáspora 2” estava o trabalho de Tantão e os fita, “Espectro”, lançado pelo selo carioca QTV, que também vem fazendo um trabalho brilhante.

“Rádio Diáspora 2” apareceu também na lista de melhores lançamentos de jazz de 2017 na curadoria de Tiago Ferreira, do site Na Mira do Groove. Outro trabalho destacado pelo crítico foi o álbum da Nômade Orquestra, que é formada por 10 músicos do ABC, dentre eles o guitarrista Luiz Galvão, que é um dos músicos que mais acompanhei também no último ano em seus inúmeros projetos (basta ver que ele, Flavio Lazzarin e André Damião talvez sejam os músicos que mais aparecem no instagram do poroaberto).

O site Hominis Canidae incluiu Radio Diáspora 2 entre os “30 discos que você deveria ter escutado em 2017”.

O lançamento do “Conduction Br #5”, da SPIO (São Paulo Improvisers in Orchestra), lançado pelo selo em dezembro de 2017 e gravado em agosto na Trackers, aqui em São Paulo, também foi destaque na crítica. O trabalho é o registro de uma execução ao vivo de 16 músicos (incluindo Rômulo Alexis) e teve curadoria de Daniel Carrera, que também toca trombone e é quem organiza o “Improvise!” periodicamente na casa.

O outro trabalho lançado pelo Sê-Lo foi o “Stars are a Harem” do gigante Micah Gaugh, que tem uma longa história com o Brasil. Contribuiu com uma música para o filme De Lama a lâmina, resultado do projeto de Matthew Barney com Arto Lindsay. Tocou na banda deste entre 2003 e 2008 e colaborou com inúmeros gêneros, projetos musicais e músicos importantes, como John Zorn, Marc Ribot, Saul Williams, Anti-Pop Consortium e vários outros. Veio ao Brasil em 2015, quando se apresentou na Audio Rebel e na Comuna (com Arto Lindsay), no Rio de Janeiro, e trouxe sua exposição “O caçador de bonecas” para Salvador. Em 2016 tocou no Improvise! na Trackers, ocasião em que apresentou também o filme “Black Suffers in Brazil”. “Stars are a Harem” é, como dito no release:

“uma resposta moderna ao disco Kind of Blue do Miles Davis, onde a música está imersa na tradição de vanguarda, mas acessível ao ouvido público graças a técnicas de gravação “pop” que suavizam os sons ásperos associados ao avante-garde americano da década de 1960”.

O trabalho ainda é ilustrado por uma foto linda de Matthew Heyner.

Tão importante quanto os lançamentos, foram os eventos promovidos pelo Sê-Lo e pela Low-Fi Projetos Criativos, criada em 2016 para conseguir dar conta da parte de produção dos shows, oficinas e workshops. Nestes dois últimos anos, a Low-Fi levou Peter Brotzmann ao teatro do Goethe Institut e Lee Ranaldo do Sonic Youth ao Solar Boa Vista.

Já em 2017, em maio, a Low-Fi promoveu a segunda edição do projeto “Art talks - SSA”, também no Goethe Institut. A programação incluiu roda de conversa, debates e performances, reunindo artistas do circuito, tanto de Salvador como de outras cidades e países. A presença das mulheres no evento foi destaque e uma forma de discutir a inserção feminina no contexto da arte eletrônica/experimental no Brasil. Contou com: Juci Reis, Marina Mapurunga, May HD, Milena Kipfmüller, Barti Sena e Victoria Zacconi Aquino, Marcela Lucatelli, Tânia Neiva, Disssonantes (Renata Roman, Natacha Maurer) e Isabel Nogueira – algumas presencialmente, outras virtualmente.

O Dia da Música foi um projeto que contou com montagem de palcos por diversos lugares do país. Em Salvador, o Sê-Lo ficou responsável por apresentar a programação de música experimental no Forte do Barbalho, no dia 24/06/2017. No line-up estavam Bartolo, Laia Gaiatta, João Meirelles e Biu.

Bartolo e Biu são artistas do Rio de Janeiro, sendo que o primeiro lançou seu último trabalho solo pelo Sê-Lo e Biu lançou "Bicho" pelo QTV em 2014. Bartolo é músico, instrumentista e tem alguns projetos relacionados à arte sonora e às artes visuais. Já trabalhou com Pedro Sá, Moreno Veloso, Rubinho Jacobina, Gal Costa, Chelpa Ferro, Miguel Rio Branco e muitos outros. O "(E)espécies", que saiu pelo selo, foi lançado depois que o músico ficou uma temporada em Lisboa, Portugal, e retornou ao Brasil.

Já no segundo semestre, em agosto, foi a vez da apresentação de Hans Koch, clarinetista suíço que é um dos maiores improvisadores da Europa, e que se apresentou junto com Thomas Rohrer (suíço radicado em São Paulo) e o percussionista Panda Gianfratti. Tive o prazer de assistir a essa apresentação, que foi impressionante, no teatro do ICBA, e que me deixou especialmente emocionada por te visto naquele dia uma apresentação de improviso em que os músicos estavam absolutamente concentrados. E tenho a impressão de que tocaram por mais tempo do que o previsto, inclusive. Nos dias que precederam a apresentação, os músicos fizeram um workshop sobre “Regência na livre improvisação” que durou dois dias, reunindo músicos do projeto da Rumpillezinho, alunos do Centro de Formação em Artes da Funceb e músicos locais.

E em dezembro aconteceu o CMC Festival 2017 (Ciclo de Música Contemporânea), que foi, talvez, o maior e mais importante festival organizado pelo Sê-Lo em 2017. As atrações principais do festival foram a alemã Ute Wasserman, que se apresentou ao lado de Thomas Rohrer, e o baterista canadense Harris Eisenstadt.

Ute Wasserman, que tem um trabalho todo voltado para experimentação da voz como instrumento, ficou um longo período no Brasil no fim do ano. Se apresentou em São Paulo no Festival Música Estranha, em novembro, e no Festival Novas Frequências, no Rio de Janeiro. Em todas as apresentações esteve acompanhada de Rohrer e, neste último festival, dividiu a noite de estreia com a apresentação de Otomo Yoshihide – que também esteve circulando pelos festivais em São Paulo, o FIME (Festival Internacional de Música Experimental) e o Improfest.

O CMC convidou ainda para sua programação Isabel Nogueira e Luciano Zanatta, do Coletivo Medula de Porto Alegre. Eles foram acompanhados por Paulo Hartmann, músico, designer e um dos organizadores do Improfest, que chegou à sua quarta edição no ano passado.

Os artistas locais que completaram a programação do CMC foram os jovens músicos que tocavam em orquestras de Cachoeira e que compuseram o Coletivo Novos Cachoeiranos, regidos por Sólon Mendes.

Todo o Festival foi organizado com investimento próprio de Edbrass e seus colaboradores, com destaque para o apoio logístico do MUNCAB, o CFA, a CECULT da Universidade Federal do Recôncavo Baiano e o AMAFRO.

Gostaria, por fim, de destacar um último projeto em que Edbrass está envolvido atualmente e quem tem tido uma continuidade de apresentações, que é o show TorquatáLia, no qual Lia Lordelo canta canções do poeta piauiense. Além de assinar a direção artística, Edbrass também compõe a banda, formada por Heitor Dantas, Uru Pereira e Antenor Castro.

Tudo isto tive a oportunidade de conversar com o próprio Edbrass em novembro em São Paulo, na ocasião do Improfest, que aconteceu no Red Bull Station. No último dia do festival, houve uma convocatória aberta a músicos e VJs que fizeram dialogar, ao longo de uma tarde inteira, som e imagem, contando com a presença de Otomo Yoshihide, que também tinha se apresentado no primeiro dia do festival.

Na ocasião, Edbrass prometeu também que dará uma entrevista ao Poro Aberto, em que conversaremos mais profundamente sobre as questões estéticas, políticas, artísticas, de sociabilidade, etc. ligadas à música experimental e ao cenário formado no Brasil. Aguardem.

 

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(Foto: Pérola Mathias | Improfest)