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3 de Abril, 2016

…pensando sobre uma nova/outra sensibilidade  

 

A atual condição da escuta exige de nós uma postura tão radical quanto a produção veloz dos territórios sonoros que circunscrevem nossos ouvidos[…] Uma possível prática revolucionária que apresente saídas e estratégias de enfrentamento diante dos territórios audíveis traçados. Uma política do sonoro que também seja uma prática de intervenção e criação de valores nesse sentido. (Giuliano Obici, Condição da escuta: mídias e territórios sonoros)

Este não é um texto tal como tenho costumado postar aqui. É um pensamento inacabado e exposto sobre o que tem me tomado, antes de tudo, como uma busca por encontrar o mundo real que vivo, que me aparece mais lucidamente entre brechas de raciocínios fraturados vindos nos raros momentos em que mergulho na estafante pesquisa que faço – ora por obrigação, ora por vocação.

Trago este pensamento depois de ter assistido a apresentação das Jornadas Arte y Ciencia – Argentina Brasil, encabeçada por Alejandro Brianza, músico e professor, num projeto em que, apoiado pelo Fundo de mobilidade do ministério da cultura, nos trouxe uma compilação de jovens compositores de diversas partes da Argentina:  Florencia Pajón Páez, de Córdoba; Federico Retamozo, de Chaco / Santa Fé; Rosa Nolly, de Neuquén; Miguel Garutti, de Pehuajó; María Costa, de Mar del Plata e o próprio Alejandro, de Buenos Aires.

Tocada pela apresentação sensibilíssima dos meninos (Florencia, Rosa e María não puderam vir), conversamos um tanto sobre o lugar e o sentido da música eletroacústica hoje. Se em um primeiro momento, dentro da sala escura de execução e, às vezes, de projeções, sou tocada pela estranheza: por que vim aqui escutar isto?; em um segundo, vou entrando nas múltiplas estradas de deslocamento dos sentimentos que a experiência abre em mim.

Nestes momentos, o que percebo é que a fachada de grosso concreto do visível deve ser quebrada. É atrás dela que se esconde a vida mesma. O real, a verdade, a coisa em si? Não importa. Muito menos será uma essência que brotará luminescente nesta busca.

Penso ali sobre a potência da transmutação da nossa condição de escuta, tal como na citação colocada acima de Giuliano Obici. Penso em imagens sonoras deslocadas de contexto e no paradoxo da imagem visual. Penso se o visível perde potência frente ao sonoro ou se tal recurso potencializa esta escuta. É assim que o som me chama, nos chama, de novo, a pensar a realidade. Numa metáfora tosca, seria como na dura luta do padre pendurado em balões que podem flutuar ou oscilar entre o ar e o prender-se ao chão num minúsculo segundo em que os pés novamente tocam a superfície.

Nos últimos dias, uma tosse contínua me toma. Quando saio às ruas ou me encontro com outras pessoas, me sinto incomodada pelo ruído que emito, muito por causa do distúrbio sonoro que posso estar causando, mas sobretudo porque os outros podem pensar que sou uma ameaça à saúde pública (ainda mais nesse tempo de surto H1N1 – ao que afirmo aqui, mas ninguém no metrô sabe: não é gripe).

Ao mesmo tempo em que tenho esse último pensamento, o mesmo Alejandro compartilha mais uma de suas observações e criações sonoras do momento em que esteve no Brasil: uma faixa em acompanha os sons da linha vermelha do metrô de São Paulo, em dias de chuva super intensa na cidade

(https://alejandrobrianza.wordpress.com/2016/04/02/linha-vermelha/” ). 

O que venho aprendendo e tentando entender aqui é o processo incrível de transmutação de objetos e sensibilidades quando deslocados de contexto, nisso incluso a (des)construção sonora de uma situação, convertendo-a em outra coisa que não a situação mesma. É como um lapso, um insight. Com a gravação do áudio do percurso entre a estação Pedro II e República, enxergo o processo de construção, condicionamento e mediação sonora através da “suspensão” do mundo, em que praticamos a destituição de valores para seguinte apreensão pela consciência da coisa analisada. Há também aí um emolduramento da escuta: por haver o deslocamento e/ou a reinvenção de um território sonoro. No formato de faixa, o som potencializa, de forma sensível, o que por si só não ouviríamos nem de forma sintetizada (ou seja, como uma pequena construção do todo), nem por parar e perceber o mundo através do ambiente sonoro que se nos é imposto. Sons que existem, mas não o ouvimos senão por ruídos separados, distantes, incoerentes, talvez incômodos ou impróprios. Seria anestesia nossa perante a realidade, uma demonização do presente (acústico) ou alguém poderá afirmar uma oposição perante esse momento?

É pertinente questionar sobre quem tem permissão para fazer ruído? Quem tem dinheiro, poder, capital, propriedade, etc? Neste sentido, provocar ruído seria uma forma do devir ou de deslocar a posição do Outro? Quando ouvimos a faixa do metrô, em que em discurso Alejandro menciona a chuva e as tosses, a permissão para o ruído nem sempre está ligado à ideia de mecanismos industriais, citadinos, de uma paisagem metropolitana, mas também inclui os tais ruídos fisiológicos. São eles incômodos pelo barulho, pela ameaça ou por quem o emite? É certo que a massa o emite. Qual a relação entre as qualificações negativas da massa e o que ela produz, corpórea e fisiologicamente?

E mais um questão: perceber ou trazer os ruídos à percepção da consciência, organiza ou potencializa o caos? Positivamente, como trazem Deleuze e Guattari, o caos pode se tornar ponto de parida para a criatividade com resultados de produção que se colocam como barreiras a pensamentos políticos e crivos de poder. Como sinaliza Giuliano Obici em seu livro: “Vale apontar aspectos positivos do ruído, como sua potência de criação e ponto de instabilidade, que possibilitam transformações, inventividades, bem como processo de ruptura na estruturação e transmissão do código” (Idem, p.44).

Por fim, trago ainda uma outra citação de Obici, em que somos convidados a refletir sobre: quais caminhos construiremos para a escuta?

A escuta musical, ou o que se considerou por muito tempo como tal, não parece ser suficiente para pensar a condição sonora em que nos encontramos. Podemos estar nos distanciando de um contato com os sons em virtude da concepção de ambiente acústico ideal […] A questão não é apenas sonora, envolve outros pontos, diretamente vinculada a um modo de se aglomerar, de concentrar corpos no espaço, de marcar o ocupar território, delimitar e instituir propriedades, produzir e consumir, controlar, disciplinar e dominar. (Idem, p.53)

Referência: OBICI, Giuliano. Condição da escuta: mídias e territórios sonoros. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2008.

Jornada Arte  Ciência
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Fotos: Pérola Mathias