O show Vinha da Ida, de Lívia Mattos

2 de Fevereiro, 2018

O show de Lívia Mattos, que acabou de lançar seu primeiro disco solo, Vinha da Ida, é de encher os olhos e todos os sentidos. Visualmente lindo, cenário e figurino, a figura cada vez mais diva da sanfonástica mulher lona chega no palco afinadíssima para apresentar suas canções. Sou só elogios: Lívia tem uma graça e uma simpatia natural no palco; canta músicas belas, leves e doces; está acompanhada de uma banda incrível - e uma formação muito singular -; e arrasa na sanfona.

Se o show fosse apenas Lívia e sua sanfona já seria notável. No entanto, como ela mesma conta, duas bandas a acompanhavam em seus shows: uma formação com bateria e cello; outra com percussão, tuba e guitarra. Para o disco e para o show de Vinha da Ida, Lívia juntou as duas. E o show que assisti ontem no Sesc 24 de maio foi assim, além das participações de Zé Manoel e Toninho Ferragutti, que também estão no disco (só faltou Chico César).

O show tem uma abertura instrumental, seguida de Vinha da Ida, que é uma música que, como já falei por aqui, tira o forró de seu tempo e ritmo, mas deixa um miolo dele lá. A faixa de abertura, e que dá nome ao disco, é um conceito forte. Vinha da Ida é o movimento e fluxo da vida, de uma cantora que está pensando sua música, seu corpo e sua pessoa no mundo sabendo do impacto que tem. Que todos temos. Se o artista é aquele que intenta mandar uma mensagem, transmitir um sinal e faz isso porque precisa desse gesto para continuar existindo, Vinha da Ida é mesmo, como a própria Lívia definiu, como o fole em movimento. Tudo isso é para escutarmos, dançarmos e pensarmos com Lívia.

Lívia chamou Zé Manoel ao palco para cantarem Sabia Pouco do Sal, música de Lívia que Zé canta e toca com ela no disco e que agora também tem um clipe. Lívia contou ontem no show que a canção era um esboço perdido num canto de caderno, que depois de um tempo ela achou. Acabou mandando para Zé e ele disse (aqui sou eu reproduzindo Lívia imitando Zé): “Livinha, a música tá pronta”. De novo segundo Lívia, a música é uma combinação perfeita para ilustrar o encontro entre eles dois, como se fosse o encontro das águas doce e salgada. Já que Zé é de Petrolina, à beira do rio São Francisco, e ela de Salvador, à beira da Baía de Todos os Santos.

E é mergulhando nessa água salgada da baía que temos mais uma deixa para conhecer o disco e o universo de Lívia, pois suas raízes estão adentrando ali no recôncavo baiano, de onde são seus avós Tereza (apelido de Terezinha) e Roque. E que são os amores que animaram a canção que parece mais emocionar a própria compositora: Olhos de Tereza. E essa família tem é resenha, que Lívia, como boa baiana e contadora de histórias, traz para o show. A gravação de Olhos de Tereza no disco - e, para minha sorte, no show de ontem - também contam com a participação de Ferragutti e Zé Manoel.

Poderia ficar falando sobre cada faixa aqui, mas talvez estrague a surpresa de quem ainda vai assistir ao show ou cansar quem ainda vai assistir de novo (e de novo, e de novo). Queria finalizar com uma coisa que me veio à cabeça ontem enquanto Lívia tocava Mais eu, que dá uma vontade incontrolável de dançar. É que agora, às vésperas do carnaval, ecoa a pergunta “qual o futuro da guitarra baiana?”. E me veio o estalo de que ouvir o disco de Lívia é uma das possíveis respostas. O futuro é para ser transmutado, reinventado, deslocado. Que é também como o forró aparece no disco de Lívia.

Vivo reclamando que sempre vou sozinha aos shows. Por outro lado, quando me sinto desanimada, afirmo para mim mesma que não vou perder um super show só porque vou ter que ir sozinha. Adoraria ter companhia para ir ao próximo show de Lívia. Mas se não tiver, eu vou assim mesmo. E se ninguém quiser dançar mais eu, eu danço pra mim mesma. Ou pra quem me olhar. Ou pra quem ainda se nega a dançar. “Pode vir desarmado para o som”. Porque é como diz meu filósofo contemporâneo favorito: “na vida tenho muito que dançar, pra aguentar o peso”. E peso aqui só o que eu imagino que aquela sanfona deve ter. Mas Lívia não se abala, não. E ainda faz tudo de salto.

Lívia, tu é mesmo um cuscuzinho!

(Entendedores entenderão).

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(Foto: Pérola Mathias | Lívia Mattos no Teatro da Rotina)