Estamos Noutra, de Paulinho da Viola e Elton Medeiros, uma lúcida canção de amor

23 de Fevereiro, 2017

Raiz

É difícil falar de amor com algum traço de razão, sobretudo quando se trata de um amor que chega ao fim. Acredito que temos dificuldade de lidar com a finitude dos sentimentos, mais do que das coisas. A ideia do apego tem sido sumamente rechaçada hoje pelas desconstruções que fazemos do amor romântico – este que, muitas vezes, é mais possessivo e obsessivo do que de fato romântico, no sentido de apaixonado, nobre, lírico, etc.

Em Estamos noutra, canção de Paulinho da Viola e Elton Medeiros, os compositores cantam com leveza e maestria sobre o tema. Dizendo que, nas relações que nos envolvemos, nem sempre é preciso viver a dor do fim e tentar botar a qualquer custo em pratos limpos o que se passou. O mote inicial da letra da canção é o cansaço de uma luta inútil que, caso não cesse, provavelmente terminará apenas com perdedores.

Cansei dessa luta
o tempo é tão curto
pra tentar de novo

Está desenhado aí uma relação ou desgastada, ou apenas esgotada. Nem sempre é preciso um motivo objetivo para que isso aconteça. O narrador dá pistas de que já tentava, conscientemente, procurar uma via que pudesse fazer o cotidiano do carinho ser revivido.

Não há mais ternura
E sei quanto custa te olhar no rosto
Não faz mais sentido
E faço um pedido
Não quero sentir em tua boca
Esse beijo frio é caso perdido
Estamos noutra

Às vezes a paixão acaba, às vezes o bem querer acaba, às vezes o amor vira outra coisa. Noutras vezes, acaba-se tudo, simplesmente. E há outras ainda em que perdura o rancor e o ressentimento.

Quantas palavras amargas
Prefiro o silêncio sem nada pedir
Lembro de nossos momentos de felicidade
O melhor é partir

Ver em teus olhos a luz se apagar
A noite descer, o tempo fugir
É querer assumir uma dor
Que não quero sentir

É como se a canção dissesse: pra quê a melancolia de ficar revivendo na memória os momentos que foram só nossos, mas que agora, com consciência, sabemos que não poderemos repetir, seja por falta de empatia, ou pelo desligamento do encontro? É melhor que esses momentos nos acompanhem no álbum da vida. Que ao olharmos para suas páginas, em vez da recordação causar sempre aquele apelo saudosista e melancólico, que elas apenas contem a história de uma vida que continua sendo vivida.

E que venham novos bons momentos. Eles são necessários, eles podem acontecer ainda, abrindo espaço para novas pessoas, novos amores, novos lugares, novas ocasiões, novos sentimentos.  Assim, “é querer assumir uma dor/que não quero sentir” soa mais como sabedoria do que como ingenuidade escapista. E a escolha do verbo “assumir” é representativo disso. Porque poderia ser “evitar”, mesmo que a rima sumisse em partes da estrofe, não causaria danos à melodia.

Lembro-me de outra canção, Quando bate uma saudade, também lançada no disco Eu canto samba, do começo de 1989, que é uma das pérolas desse disco de Paulinho da Viola. A letra dessa canção dá a receita do samba numa maravilhosa poética do óbvio ao dizer que sua inspiração pode vir daquele momento quando  “bate uma saudade/Triste, carregado de emoção/Ou aflito quando um beijo já não arde/No reverso inevitável da paixão/Quase sempre um coração amargurado/Pelo desprezo de alguém/É tocado pelas cordas de uma viola/É assim que um samba vem”. No disco, inclusive, essa é a faixa que sucede Estamos Noutra.

O fim do amor pode acontecer simplesmente, sem motivos. É inútil tentar achar um culpado, ou ficar rememorando e remoendo os momentos de copos quebrados. Assim como os cacos foram para o lixo, novos copos povoaram os armários e circularam pelas bocas dos amantes e das visitas, o amor que perdeu o fogo poderá/será também substituído. E aí me lembro ainda de outra canção, a clássica Pressentimento, do mesmo Elton Medeiros: “Ai! ardido peito/ quem irá entender o teu segredo?/ quem ira pousar em teu destino? […] vem meu novo amor/vou deixar a casa aberta[…] vem, que o sol raiou/os jardins estão florindo/ tudo faz pressentimento/que este é o tempo ansiado/de se ter felicidade”

E quando é tempo de se ter felicidade? Sempre não pode ser, se a felicidade está mais para um estado impermanente do espírito e do corpo do que um momento visado ao qual poderemos chegar e ficar. O que aprendo com estes mestres da elegância é que o único deus em que se poder crer é o tempo, senhor de tudo, que se encarrega de tomar conta do nosso bem mais precioso que é a vida. E como será a vida no turbilhão das novidades, do caminho a ser seguido só, na aventura dos dias? Apenas segue. Anda e desfruta do teu caminhar, que tudo há de ser como deve. Só não esquece de levar o samba junto.