“E de manhã o esculacho”

 

 9 de Setembro, 2015

As letras de Gui Amabis, a crueza trabalhada de nossos ‘novos’ e um show de Márcia Castro

Há uns meses atrás, logo que Márcia Castro lançou seu novo disco “Das coisas que surgem”, disse que achava que Gui Amabis a cada dia que passava se insurgia e se revelava com um dos compositores mais interessante que podia presenciar. Tal observação me veio porque Esculacho foi a música do disco de Márcia que mais encheu meus ouvidos. Escutei, escutei e continuo colocando-a no repeat, uma interpretação linda.

Amabis lançou agora o seu terceiro disco. Em todos os três discos autorais do cantor/compositor/produtor, na ordem que quisermos, encontro um ponto que me sobressalta aos sentidos: suas letras. Nelas, nos são contadas cenas fortes da vida. Que nos deixam com as olheiras fundas e os olhos vermelhos (como a contracapa de Ruivo em Sangue). Atolados com um peixe inteiro na boca (como na contracapa de Trabalhos Carnívoros).

As letras de Amabis muitas vezes aludem a roteiros de filmes que representam o próprio drama da vida. Encontramos nelas narrativas poéticas bem delineadas, mas também, noutras vezes, imagens construídas tal qual um mosaico, recortadas. As imagens evocadas parecem falas de um coração ainda não sereno que busca o refúgio do espírito. Lembram a busca de Alberto Caeiro quando escreve a seu Mestre Querido (Mestre, meu mestre querido!) para falar da “angústia sensacionista” dos dias sentidos, em que está presente a “mágoa cotidiana das matemáticas do ser” que o faz sentir-se um escravo da própria vida.  Em Ruivo em sangue, esse problema humano, demasiado humano, é singularmente tratado e revisto pelo prisma da coexistência intrincada de natureza e cultura. O que coloca Amabis num lugar diferenciado, ao menos para mim.

Ademais, o que ele canta são visões, sensações, mudanças, crenças e relações com o universo e os sentimentos mais íntimos que carregamos com certo peso ao longo dos dias, captando a transformação diária por que passamos: “agora eu vejo que sinto e tudo faz bem mais sentido/ o custo de todos os vícios”. “Um bom filme” não é uma estória, senão uma reflexão do momento em que nos damos conta de nós mesmos. Ao contrário de “Pena mais que perfeita”, um roteiro para as dores que não conseguimos superar. Como no irreversível risco em negativo, elas só cessarão quando a matéria virar cinzas. É uma das faixas mais melódicas e emblemáticas de Amabis. Está no disco Trabalhos Carnívoros e sua toada invoca o corte na pele até a carne, mas nos lembra da força moura que nos forma ancestralmente – como memórias luso-(norte)africanas. Esta foi a música que ganhou um belo clipe de Julio de Andrade, cuja dor renasceu encarnada na voz de Juçara Marçal em seu disco de 2014.

Toda a poesia de Amabis está rodeada de um ambiente musical que é denso, pelo tom e pela textura. E é interessante que muitas vezes é possível identificar nas letras a poesia se confundindo com a descrição do processo artístico e da relação com a música:

Doses concentradas de alegria Timbres trazem versos para mim Todas essas letras são o brilho De uma alegoria que vivi e despi A cada compasso um cenário Em cada retrato um gatilho Aguento dez noites a fio O frio no estômago liso (Tiro)

Por mais que os releases dos discos digam que as inspirações e os momentos de vida e de composição de Gui Amabis sejam diferentes em cada um dos três discos, me parece que eles conversam entre si e se conectam bem. Mesmo com a (quase) leveza das faixas compartilhadas de Memórias Luso, a melancolia da andança, das raízes, dos voos e a luta com a herança se sobrepõem em todos eles. E estas características se encontram numa síntese alta em “Para Mulatu”, letra de Criolo e música de Amabis que, mais do que a uma roadtrip, me remete à comédia de Jim Jarmusch. É como uma trilha posterior para quem viajou junto com Bill Murray no universo rosa (mas nem tão delicado) de Flores Partidas.

Facilmente compararia também, no entanto em outro momento e com bastante cuidado, as letras e o tom sóbrio dos discos de Gui com a beleza dos discos de Rômulo Fróes, Rodrigo Campos e Juçara Marçal – os novíssimos não tão mais novos que formam nossa “fina flor”. O fino hoje é o bruto, não pelo estado de aparência, mas pela intenção da crueza. Um jardim de flores propositadamente ruidosas: é este o nosso mundo de hoje (e rechaço qualquer descrição de molde “pós bossa-nova” de composição, ainda que historicamente ele se encaixe para descrevermos a realidade. Mas é por rejeitar a ideia de adaptação que ele me soa raso). Precisamos reconhecer que o trabalho maduro que estes músicos, os mais bem sucedidos da nossa cena independente, nos apresentam hoje é fruto de um trabalho longo, árduo e positivo – e também múltiplo: de composição, produção, engenharia, gravação, pesquisa, etc. Eles não surgiram assim, eles chegaram até aqui e honramos seus processos – igualmente ricos.

“Esculacho”, a canção gravada pela voz doce de Márcia Castro, pode até ter ficado com um tom menos sóbrio do que as cantadas nos discos de Gui Amabis, mas a letra que descreve o drama do conflito a dois é potente e real. O drama da relação que não está funcionando chega ao ponto da auto-reflexão e racionalização de sentimentos e movimentos. Em outras palavras: como não ser escroto? Compartilhar com os amigos mostra o que já não tem saída, um malfadado relacionamento sem sentido e sem culpados. Quando o convívio está desgastado, mesmo um gesto de carinho ou cuidado machuca.

“E meio dia você bate a porta/ pra me mostrar que eu estava errado/ Melhor seria se tivesse dito”. Como dizem, “quem nunca?”

Neste agosto musical que a cidade-desilusão [o Rio de Janeiro] viveu, Márcia Castro apresentou-se pelo festival Invasão Baiana e deixou Esculacho (e algumas outras das músicas do disco novo) de fora. Basicamente dissertei todo este texto para, além de chamar atenção para Amabis, claro, pensar sobre o caso: entendo que show de festival não é apresentação de disco novo, é um show curto em que o artista tem pouco tempo para ganhar o público (que não era grande neste dia). No entanto, o show veio cheio de  (muito boas) versões de Márcia para clássicos da Bahia, de Edson Gomes a Novos Baianos, passando pelas melhores de Olodum e É o tchan num estilo pot-pourri. Ora, nos divertimos à beça com nossos clássicos, mas se o festival queria trazer o que a Bahia tem de melhor hoje, por que não pudemos ver por completo o que Márcia tem feito de melhor em seus discos e caímos na insistência de exportar o que ficou consagrado dos (supostos) “anos de ouro” musical da Bahia, reconstruindo e consolidando uma imagem caricaturizada de nós mesmos (baianos)?

“Canta Esculachooo”, fui eu que gritei.