Cortes em cores negras

23 de Outubro, 2015

O traço transverso de Iago Mati sobre o Jazz

 

“Fomos para o barraco da família de Terry. Ficava na velha estrada que cruzava vinhedos. Estava escuro quando chegamos lá. Eles me largaram uns quinhentos metros antes e se dirigiram até a porta. A luz jorrou por ela; os outros seis irmãos de Terry estavam tocando violão e cantavam. O velho estava bebendo vinho. Ouvi gritos e discussões acima da cantoria. Eles a chamavam de piranha por ter abandonado o marido que não prestava e ido para LA, deixando Johnny com eles. O velho berrava. Mas a opinião da mãe, morena, gorda e melancólica, prevaleceu mais uma vez, como sempre acontece entre os grandes povos do mundo, e Terry pôde voltar para casa. Os irmãos começaram a tocar músicas alegres, mais rápidas. Eu tiritava no vento frio e chuvoso e observava tudo através dos tristes vinhedos de outubro deste vale. Eu estava com a cabeça nesta grande canção que é “Lover Man”, cantada pro Billie Holliday; curti meu próprio concerto entre os arbustos. Someday we’ll meet, and you’ll dry all my tears, and whisper sweet, little things in my ear, hugging and a-kissing, oh what we’ve been missing, Lover Man, oh where can you be… Não era tanto a letra, mas a incrível melodia harmônica e o jeito como Billie canta, como uma mulher acariciando o cabelo de seu homem sob a luz suave do abajur. Os ventos uivavam. Fiquei com frio.”

O Jazz permeia o imaginário cultural contemporâneo de diversas maneiras. Sua atemporalidade de um século demonstra força nas inúmeras produções nas quais nos deparamos com o gênero musical, seus mitos, suas figuras, sua história social, política e sua estética como referência para a literatura, o cinema, a crítica cultural e as artes plásticas. A citação acima é um trecho do icônico On the road, de Jack Kerouac. Nele, o personagem Saul está com sua ‘namorada’ Terry, ele americano e ela mexicana, no sul da Califórnia enfrentando um tempo de colheita e pouso, em que sonhou que poderia ser um camponês por toda a vida. Saul vive sua vida louca e livre embalado, dentre outras coisas, pelo amor ao jazz, um ritmo da sua época. O jazz é definitivo não só na estória no livro, mas na escrita de Kerouac e na compreensão de toda a geração beatnik.

Recentemente, fui aconselhada a ler o livro “Frutos estranhos: sobre a inespecificidade na estética contemporânea”, da especialista em literatura Florencia Garramuño. Nele, a autora questiona, a partir de uma instalação do artista paulista Nuno Ramos que dá nome ao livro, sobre a especificidade (ou a falta dela) na linguagem artística contemporânea, em que os artistas criam sobre métodos, meios, elementos e temporalidades diversas. A ideia da inespecificidade é trabalhada pela autora como uma característica que coloca as obras no lugar de um “não pertencimento”, pois os objetos ou artifícios produzidos, ao entrecruzarem meios, combinarem formas e se postarem como interdisciplinares, saem de uma definição da especificidade, do próprio, da propriedade ou da disciplina, expandindo de alguma forma a própria linguagem artística, que ultrapassa e transborda as barreiras da definição. Assim, a inespecificidade não é a contingência e também é mais do que a pluralidade, é o não pertencimento a uma ideia de arte como específica, como por exemplo no que vemos na “arte multimídia”.

Não quero tanto aqui entrar na ideia do livro, debato o assunto da arte contemporânea como sendo uma espécie de paradigma em outro texto (que depois posto por aqui). O que quero sublinhar é que o título do livro de Garramuño, inspirado diretamente na instalação de Nuno Ramos, foi, na verdade, tomado pelo artista da canção Strange Fruit, uma das primeiras músicas consideradas de protesto no jazz e uma das mais famosas na carreira de Billie Holliday, sua principal intérprete. Strange fruit data da virada entre as décadas de 1930/1940. O período em que, segundo Eric Hobsbawn, o estilo já havia conquistado o público negro de todo os Estados Unidos, evoluído muito musicalmente e começava a ganhar público também na Europa com os músicos de swing.

Com estas citações, observo, ainda que superficialmente, como temos em diversas camadas a ideia de que o jazz permeia referências culturais distintas, de forma muito plural e, ainda assim, peculiar.

Cortes em cores negras, exposição do artista Iago Mati, que será exibida na próxima quarta-feira 28/10, em São Paulo, é uma outra forma incorporada de ode ao jazz. São apresentados desenhos inspirados nos nomes, no balanço ou na melancolia do som. Trata-se de uma série que utiliza-se da técnica do scratchboard: assemelha-se a gravuras, feitas em camadas de tinta e outros materiais, em que Iago tem como suporte a tela convencional e grandes painéis de madeira. O scratchboard como técnica de ilustração surgiu alternativamente ao uso dos convencionais materiais metal, madeira e o linóleo, e se tornou mais tarde uma técnica muito usada para ilustrações científicas.

As Cortes em cores negras de Iago Mati são, por assim dizer, também uma espécie de subversão não só da pintura convencional, mas da própria técnica da qual ele se apropriou, por deslocar o uso dos materiais e instrumentos, criando artifícios e objetos muito próprios não só do seu processo de criação, mas do momento de “inespecificidade” ou “não pertencimento” – o qual discute Garramuño. Talvez venha daí a insistência de Iago em afirmar o caráter de inicial do trabalho que apresenta em Cortes em cores negras, cujo resultado não deixa de ser absolutamente deslumbrante e forte.                  

Iago Mati

 

O trabalho do artista segue, para além deste “primeiro momento”, da tela aos grandes murais, até a sua mais nova inserção: o vídeo. E surpreende ver os vídeos experimentais que têm sido feitos por ele, que trazem este mesmo universo da pintura, questionando a forma na própria forma e no seu conteúdo.

Neste processo de constante transmutação e movimentação, em que Iago Mati insiste que seu Cortes em cores negras constitui uma primeira elaboração de seu trabalho, que ficou no passado de sua obra, perguntei ao próprio alguns ‘comos’ e ‘porquês’ disto…

PA: Por que você considera que esses são seus primeiros trabalhos? Por que você escolheu o Jazz? Ou foi natural?

IM: Eu falo que foram os primeiros porque eu estava há muito tempo sem fazer nada e estava trabalhando com design. Eu desenhava quando era criança e depois me deu vontade de voltar a desenhar e eu não sabia de nenhuma técnica, tipo pintura a óleo ou outro tipo de pintura, e nem tinha nenhum material. Mas ainda tinha coisas como giz de cera, guache e eu lembrei dessa técnica que eu tinha aprendido quando eu era criança, que era simplesmente passar algum tipo de material gorduroso em alguma superfície, depois cobrir de preto e raspar, uma espécie de desenho em negativo. E tinha alguns cds e discos, estava escutando várias coisas de Jazz na época e tinha uma foto do Charles Mingus na minha mesa e eu peguei e desenhei ela. E eu gostei do resultado, achei que retratou bem aquela época, porque as fotos antigamente eram todas pb’s e eles colocavam uma espécie de gelatina com alguma cor em cima. E foi exatamente o que essa técnica que eu usei mostrou, sabe? Tipo, era quase como realmente fazer a foto, replicar a foto, só que com essa raspagem. Dava uma intenção muito próxima, aí eu achei que seria legal pegar os principais jazzistas e fazer o retrato deles como uma espécie de exercício mesmo, de experimento. Só que aí depois que eu fiz alguns, eu comecei a pensar que eu não precisava fazer a foto de ninguém, eu posso só pegar e pensar, “ah, eu posso fazer alguém que estava assistindo um show de jazz ou um jazzista que não é conhecido e fazer misturado”. Então ficou isso, começa com essas figuronas do jazz e depois começa a só ter um cara no trompete, tipo uma moça como se estivesse assistindo ao show, começou a não ter nome. Começou a ser qualquer pessoa que na minha cabeça se encaixava nesse mundo do jazz.

Iago Mati

PA: E de onde vem as cores que você usou?

IM: As cores foram uma surpresa, na verdade, porque eu usei a base de giz de cera de criança mesmo. Tentando até começar uma coisa bem simples que acabou ganhando uma espécie de complexidade… não complexidade, mas esse trabalho para mim era legal porque tinha três níveis: primeiro pegava qualquer cor que eu queria ali no meio daquele bando de giz de cera e pintava uma folha inteira. Então era uma coisa até meio de criança, fácil. Pegava três cores e ficava pintando feito louco uma página inteira de giz de cera. Tinha que cobrir toda a página. Ah, essa aqui vou começar fazendo um círculo azul e ficava fazendo círculo até fechar a página. Pegava três cores e fazia uma mistura. Mas são cores primárias, azul, vermelho, amarelo… que tem em qualquer caixa de lápis de cor. Esta é a primeira fase, de escolha da cor, que era bem aleatória, na verdade, era o que tinha. No começo era bem simples, escolher uma cor, depois cobrir tudo de preto e depois vinha a parte mais complexa que era fazer a raspagem e retratar as figuras do jazz e os personagens que eu inventava.

PA: E o suporte?

IM: Então, depois que eu percebi que isso funcionava bem no papel, eu pensei que funcionaria em qualquer lugar. É só colocar uma camada gordurosa de qualquer coisa, pintar tudo de preto e ir raspando. Pintei a porta inteira de giz de cera, que foi um puta trampo, demorou muitas horas, e depois tudo de preto com tinta óleo. Acho que demorei uma semana pintando. E começar a raspar para aparecer alguma imagem. Depois que eu fiz essa grande, eu vi que era muito cansativo e que é uma técnica muito demorada para isso. Mas foi um aprendizado legal porque eu entendi que funcionava em qualquer suporte, comecei a pegar uns pedaços de madeira ou qualquer coisa pela rua, porque funcionava como um quadro ou uma tela.

Iago Mati

 

PA: E você estava lendo alguma coisa sobre jazz nessa época, ou já leu? De história, de casos específicos, etc?

IM: Eu li, porque achava que essas são figuras que todo mundo sempre fala, que estão sempre na sua cabeça: “ah, Miles Davis é gênio, não sei quem é gênio”. Então assim, por que esse cara é gênio? São ícones da música e gera curiosidade. Eu acabava escutando e quando eu gostava de um álbum ou melodia eu procurava ler.

PA: Você lembra de alguma coisa que você leu, em específico?

IM: Lembro das histórias do Miles Davis. Achei ele um artista muito bacana, porque foi o cara do jazz que sempre passeou em vários estilos. Começava com uma coisa, criava um estilo novo e depois ia para um próximo, misturando. Ele praticamente criou o fusion, tipo misturou com o rock e esteve ligado com a música pop. A gente sempre tem uma visão, eu pelo menos porque não vivi essa época, em que o Miles Davis estava no auge, daquela coisa do jazz como música que não é popular. Mas depois, lendo um pouco, descobri que o jazz foi muito popular. O Miles Davis tocou em grandes festivais de rock, emplacou vários sucessos. O Herbie Hancock tem música que os grupos de rap pegaram a base e fizeram virar clássico, que já era clássico com ele. E foi muito popular inclusive no começo da nossa geração. Depois que foi se enfurnando em outros lugares  e ganhou essa cara de música para a elite, quase como música clássica. Mas sempre foi popular, mas não sei falar muito sobre isso na verdade.

PA: Mas você lembra de algum autor específico que você leu ou de algum caso engraçado ou curioso sobre os músicos?

IM: Ah, muitos. Eu não sei se foi o Lee Morgan, ele era muito jovem, sempre querendo se mostrar, acabou sendo humilhado em uma jam. Aí ele sumiu por meses e voltou sendo quem é. Essas coisas, a questão da violência, do uso de drogas, as ideias do porquê fazer aquele tipo de música. A história que o Miles Davis curtia o Hermeto Pascoal e que o Hermeto deu soco na cara dele, na boca dele. O Miles Davis treinava boxe, mas não lutava porque tinha medo de machucar a boca. Aí, uma vez ele foi brincar com o Hermeto, que tacou um soco na boca dele. Esse tipo de coisa maluca.

Iago Mati

 

PA: E depois desse trabalho você começou a fazer o que?

IM: Ah, depois eu fiquei puto com isso porque para mim era realista, não é realista que fala… você pensa numa imagem, alguma coisa, e desenha exatamente aquilo, assim. Eu quis abandonar isso, vi que não tinha muito sentido para mim ficar fazendo aqueles rostos e tudo mais. No começo foi importante porque foi quando eu voltei a desenhar e começar a pensar, foi exatamente o processo. E na minha opinião agora é convencional. Eu quis fazer coisas mais desafiadoras. E tinha várias influências mais atuais, que não estavam muito ligadas no sentido dessa coisa clássica, assim. Essa coisa figurativa não era o que eu queria e comecei a puxar outras coisas.

PA: Dá um exemplo de trabalho seu que você fez logo depois disso, próximo temporalmente.

IM: Eu comecei a estilizar esses rostos e pintar paredes. De certa forma, nessa época foi o boom, mesmo que publicitário, aqui em São Paulo, de arte de rua. E de certa forma me influenciou. Eu quis pintar algumas paredes, experimentar spray, tinta e outras coisas. E comecei a fazer uma mistura do que era figurativo com outros elementos. Depois que eu quis fugir dessa coisa da figura humana, aí me remeti a outras coisas. Por exemplo, pássaro, sempre achei legal e comecei a fazer alguns. E não me sentia obrigado em retratar qual era a espécie que eu estava desenhando. Rolou uma liberdade a partir daí e até um pouco de ideias que eu já tinha de como começar uma construção a partir de letras e formas caligráficas, porque eu gostava muito de poesia concreta. E a partir daí eu achei que era um caminho legal para seguir, tirar essa parte figurativa e começar a pensar um pouco na coisa da poesia concreta – que eu nunca desenvolvi porque eu não escrevo, mas a ideia é interessante.

Iago Mati

 

 

PA: O que você pensava quando você estava fazendo esses trabalhos do jazz, sobre o que aquilo devia dizer ou expressar com determinado traço?

IM: Sendo bem sincero, para mim era só um exercício. Não tinha nenhuma pretensão. Só fiquei surpreso com o fato de ter conseguido gerar um impacto que fosse parecido com as fotografias das capas de disco da época e continuei. Depois eu vi que tinha um material interessante na mão. Na minha cabeça era uma espécie de estudo/experimento que depois eu abandonei para fazer outras coisas.

PA: E como você vê a relação entre a música, as artes plásticas, o som e o design?

IM: Acho que tem tudo a ver, sempre esteve interligado. Mas talvez a questão seja de que a gente ainda não seja munido de tecnologia ou munido de capacidade de sinestesia para entender a relação que existe e que é muito profunda entre as duas coisas. Sempre teve uma influência e um cuidado na escolha da capa do disco, essa escolha sempre retratou um momento, sempre teve uma preocupação com o palco, com a vestimenta. A pessoa se expressa e se movimenta, ela está tocando e dançando, então já é alguma coisa. Acho que os artistas percebem essa ligação entre o som e a imagem e eles, mesmo que seja sem querer, expressam isso. A gente compra o disco porque gostou de uma capa, ou achou que ela era muito louca, foi escutar o som e também era muito louco. Quando eu comecei a usar traços mais finos e marcar os intervalos, eu comecei a perceber que tem um ritmo. Todo desenho tem um ritmo, eu percebi, mas sai muito natural. Mas voltando, as primeiras capas de jazz eram uma foto com filtro colorido e na minha cabeça remetem muito a como eram os shows antigamente, o clima. A galera ia lá, bebia, acendia um cigarro, eram lugares muitas vezes clandestinos que rolava som. Aí eu percebo que essas capas retratam isso e quando escuto o disco esta imagem toma conta da minha cabeça.

PA: Você acha que tem a ver com o ambiente de quando você tocava?

IM: Acho que não, porque a gente já tinha muita luz, as pessoas já tinham muito essa referência do que é um show como um espetáculo, que vem com o rock. Eu mesmo já tinha muito essa referência. Eu nunca toquei bem, mas sabia que tinha que mexer, correr, criar uma imagem.

Iago Mati

 

 

Iago Mati

Filho de um piauiense de com uma paraense de Belém, Iago Mati nasceu em Brasília com o nome de Thiago Xavier, ficou alguns meses na capital que seu pai ajudou a construir e se mudou para inúmeras cidades até fixar-se em São Paulo. Passou o fim da infância e início da adolescência em Belém, numa casa que, segundo ele narra, tinha um quintal maior do que o mundo. Uma espécie de menino no espelho, Iago conta memórias de uma infância travessa de terra, selva e molecagem. Sua mãe nunca proibiu, por exemplo, que ele e os irmãos pintassem como mandasse a imaginação as paredes da casa que moravam. Da adolescência em Belém, ele narra como teve suas experiências atravessadas pelas ondas tropicais e pelos sistemas de som da periferia da cidade. Convivia com um tio dono de um jukebox e um irmão que gravava os programas de rádio.

 

Já em Goiânia, onde passou da adolescência à vida adulta, sua intuitiva mãe, ao comprar inocentemente roupas de departamento com emblemas de surf, o presenteou por acaso com um vinil coletânea das melhores músicas da surf music da virada dos anos 80 para os 90. Quem viu a banda Iscariot nos palcos do martim cererê, sabe que o encadeamento destas memórias faz todo sentido na construção desta figura que hoje nos apresenta como Iago Mati, com a força de seus traços, seu jogo com as cores e com a inventividade de seus múltiplos projetos. Mário de Andrade se dizia 300, 350 e sabemos que ele foi muito mais. Estou a contar quantos Iago é e pode ser quando expressa toda sua sensibilidade ao mundo (vide a quantidade de projetos ele tem no Tumblr, em seu instagram, em suas páginas do FB, em seu portfólio e em projetos e obras que sei que estão por vir).

E o convite para a noite de quarta (28/10), no King of  Fork, que fica ali na Artur de Azevedo (Pinheiros, Sampa city). Nos vemos!

Iago Mati