Com quem você vem?

5 de Junho, 2017

   “Vai dizer que não é forte essa prece
de cantar e tocar e dançar junto”

  Da janela, Luiza Brina    
 

 “Apesar das paredes
Nossa voz avança
Nossa dança
Faz-se em praça aberta
Braço forte, peito alerta”

Nós ao vivo, Daniel Medina

Um encontro de delicadezas materializadas em canções, este foi o resultado do show que reuniu Daniel Medina, Pedro Carneiro (Vovô Bebê), Luiza Brina e Igor Caracas. Sem se conhecerem pessoalmente, o projeto “Com quem você vem?” propôs a Daniel Medina e Pedro Carneiro que tocassem juntos e convidassem Luiza Brina e Igor Caracas. Em dois dias eles dialogaram pessoal e musicalmente de forma tão intensa a levantar o show que mesclou músicas autorais dos quatro, em versões e intervenções novas.

Daniel Medina lançará em julho seu primeiro disco; Luiza Brina recém-lançou o seu segundo, “Tão tá” – um disco-objeto de design primoroso; Pedro Carneiro lançou o “Coração Cabeção” em março, além de seus projetos de produção; e Igor Caracas tem tocado com Saulo Duarte e Maria Ó, gravou com Laya, Oto Gris, Daniel Groove (e muitos outros) e está co-produzindo o disco de Daniel.

Daniel e Igor são cearenses. Luiza, mineira. E Pedro é carioca. Talvez as diferenças que caracterizam cada um dos quatro músicos seja o ponto comum do diálogo ocorrido entre eles. Cada um canta sua terra de modo sutil – sem bairrismo, melancolia ou apego às raízes. Cantam porque são sensíveis às realidades. E aí – mas não só, creio eu - está o cerne das canções: nas letras com índios, bois, balanços praieiros, moleques e suas gírias; e nos sons com experimentalismo, toadas e tópicos folclóricos bem arranjados.

As canções de Daniel Medina exalam a força de sua presença e postura aberta. O amor está o tempo todo presente ali, ora assumindo-se canção - o amor pela arte e seu caminho -, ora nos pormenores do afeto. As canções de Pedro são pontuais como crônicas citadinas, mas de filosofias existencialistas inusitadas. Como nos versos “a verdade não passa de um ponto de vista/com status de palavra-resposta/e o povo gosta de ser bem informado/ prisão da definição”. Pedro tem um quê da inocência madura do contador de histórias. Não tão rasgado quanto Daniel, mas com a expressividade minimalista presente no levantar de sobrancelhas sob os óculos ou no posicionar dos pés enquanto toca.

Na apresentação, os músicos se dividiram entre os quatro cantos da sala da Casa Líquida, formando um círculo irregular. O posicionamento fez com que o público se deslocasse ou se alocasse entre eles, sendo estimulado a olhar para ângulos diferentes, ver e ouvir os instrumentos separadamente. E também a passar por entre, ou olhar de fora. Os músicos trocaram as posições, os instrumentos, mas nunca chamando lideranças para si. Foi curioso ver Luiza na percussão. Ou Daniel na guitarra. Ou Igor no violão. Ou Pedro no baixo. Não que eles não pudessem, Luiza e Pedro, sobretudo, são multi-instrumentistas. Mas foi mais uma forma de ter um deslocamento dentro da experiência proposta pelo projeto. O “Com quem você vem?” queria ser algo diferente do mero show com participações.

A ideia inicial deste projeto foi promover encontros entre artistas que na correria do dia a dia e no vício dos movimentos talvez não se encontrassem, mas que pudessem fazer desse encontro um momento único para a criação. O resultado é, assim, uma surpresa tanto para os artistas, quanto para os que os assistem, de forma que, neste último passo, todos acabam fazendo parte do ciclo. É uma aposta no encontro como motor da vida. A abertura da Casa Líquida ao projeto foi fundamental. A Casa constitui o projeto performático de Julia Feldens, cuja proposta é acolher artistas em processo de criação, promovendo em seu espaço um fluxo de afetos.

Com quem você vem