Bruno Capinan: o pássaro

14 de Março, 2016

Há quase quatro anos, no dia 12 de junho de 2012, conheci o cantor, compositor, performer e buona gente Bruno Capinan numa noite semi fria de Botafogo. Além de dia dos namorados (em que eu levei um homérico pé na bunda que não me deixou esquecer a data), era lançamento do álbum Pitanga, de Mallu Magalhães, no teatro do Solar de Botafogo (Rio de Janeiro). Mallu estava linda e fez um show igualmente lindo. Depois de sua apresentação foi que conheci Bruno, por intermédio do músico e produtor Luisão Pereira. Saímos para um breve chopp na Cobal e, com tanta coisa boa superando um único (e hoje insignificante) percalço no caminho, ficou a lembrança de uma noite radiante.

Além do astral, me chamou atenção naquela noite que Bruno, entre um grupo de falsos e autênticos baianos, era um verdadeiro baiano, levemente com sotaque, que morava (e ainda mora) em Toronto, no Canadá, e se dizia apaixonado pelo Rio de Janeiro. Sua trajetória por si só me deixou intrigada. Ele me deu seu disco “Gozo” e pensei, antes de chegar em casa, que ali eu poderia ter mais pistas sobre a multi-identidade daquela pessoa formada com uma origem plural e com influências e andanças difusas.

Em 2014 Bruno lançou outro disco: “Tudo está dito”. Este é, com certeza, mais alegre e colorido, tanto na capa, um desenho do próprio feito por Mallu Magalhães; quanto na tonalidade e letras de suas canções. Ele apresentou o disco algumas vezes no Brasil e não pude assistir a nenhum desses shows. Na verdade, nunca mais havia visto Bruno.

Em outubro do ano passado, 2015, Bruno estava no Rio e fez um novo show, no projeto da Nuit Nomade, no Cine Joia. No coração de Copacabana, um dos cinemas mais aconchegantes da cidade se tornou o palco de Bruno Capinan naquele dia, num clima descontraído e intimista. Bruno se apresentou frente às projeções ao vivo da artista Nathalie Melot, acompanhado por Domenico Lancellotti na bateria, Bruno di Lullo no baixo e Bem Gil na guitarra – tendo ainda participação especial de Ana Lomelino.

Tive o privilégio ou a sorte de ir ver Bruno  com a câmera em punho neste dia. E apesar da esparsa iluminação, que atrapalhou a minha pouca ou nenhuma técnica fotográfica, tentei ao máximo captar o brilho desse ser de luz. Bruno fez um show divertido, espirituoso e, sobretudo, muito talentoso. Em cada música era possível se encantar com seu ritmo, sua dança, seu figurino esplêndido, sua performance, seu jeito de cantar e suas histórias - espero mesmo que vocês vejam um show dele e escutem como nasceu Gang Bang Mangueira e como ele conta que Domenico reagiu querendo saber o significava “Gang Bang” (com o próprio Domenico rindo à beça atrás da bateria).

Bruno é aquele musico que você pode ir a um, dois, três, mil shows se tiver oportunidade e deixar seus discos rodando no sábado ensolarado. Ele é aquele cara alto astral que dá vontade de convidar pra uma cerveja no fim de tarde, se juntar para ver o pôr do sol na praia ou caminhar no calçadão de Copacabana (como nos desenhos de Mallu que ilustram o encarte de “Tudo está dito”).

Segue aqui um bate-papo meu com Bruno Capinan  

PA: O que é fazer arte para você?

BC: Fazer arte é o meu oficio. Mas além de oficio, penso arte como política. Luta contra fluxos de normalidade e controle, esse controle territorial, sexual, educacional, econômico, estético. A arte está no centro de pensamentos filosóficos que não cabem somente na arte por si só, ela depende da percepção do outro para existir, mas independe dessa percepção para ser criada. O que resulta em algo distinto da arquitetura, por exemplo. Fazer arte é contrariar a si mesmo e a muitos. Não faria arte para sobreviver financeiramente por exemplo, mas somente por esses motivos que citei.    

PA: Como você sente a música?

BC: Com o corpo, todo! Rs. É muito orgânico. Tudo é música pra mim. Outro dia eu estava num táxi no Rio e comecei a batucar e a cantarolar, é muito natural isso, e o taxista perguntou se eu era compositor.  

PA: É possível comparar o cenário artístico musical que você circula no Brasil com o do Canadá? Como você vê ambos? (com relação à produção, criação, recepção… enfim, o que lhe vier à cabeça)

BC: Sim, são mercados bem diferentes. Aqui no Canadá a indústria se espelha nos Estados Unidos, embora com números menores por conta da população ser menor também. Na parte francesa de Quebec, principalmente em Montreal, a indústria da música tem uma força mercadológica maior comparada as outras províncias, creio que por conta da arte ser vista como fator relevante no desenvolvimento socioeconômico, e por conta da luta pela resistência da língua francesa. Minha música tem sido bem recebida, e tenho tido o apoio municipal, estadual e federal para botar o bloco na rua. Porém, a criação fica muito no existencialismo, tudo muito ideológico. Mas a minha visão não se limita a patriotismo ou nenhuma sensação de melhor ou pior lugar pra se viver. E mesmo cantando em Português, essencial para manter o contato com a língua materna, a recepção tenho sido surpreendente. Penso em gravar um disco todo em Inglês, mas muito mais para o público Brasileiro do que pro Canadense.        

PA: Se fosse pra você fechar os olhos, pensar no verão e escolher um astral: Bahia ou Rio de Janeiro? Como foi a experiência deste ano no 2 de fevereiro?

BC: Verão é na Bahia, é menos calor e todo mundo fica amoroso. No Rio é só sexo no verão, e no outono, inverno e primavera. Na Bahia ainda rola uma connection. Eu sempre componho mais na Bahia, recebo mais carinho e a pegada baiana é mais amorosa.

O verão e o 2 de Fevereiro deste ano foi incrível, como todo ano. É uma energia única na Bahia. Muito amor, muito riso, muita gente. Esse ano foi especial por estar próximo de amigos e artistas que amo muito, como Ana Claudia, Bem Gil, Caetano, Ava, Negro Leo, Anelis, Marcinha Castro, Zé Manoel, Moreno, Vitor Hugo, Ricardinho, e tantas outras almas alucinadas naquele lugar, naquele momento das nossas vidas, naquele fluxo de energia.

PA: Gostaria de dizer algo para os nossos ~leitores~?

BC: Sim! Esse ano vai rolar disco novo e participações em discos de amigos também. E outras surpresas que não revelo nem sob tortura ou suborno.  

Quem me apresentou Bruno Capinan, como disse, foi Luisão Pereira. Luís é um baiano de Juazeiro, terra de João Gilberto e Ederaldo Gentil (por acaso, seu tio), e foi guitarrista da banda Penélope entre os anos de 1990 e 2000. Atualmente ele toca com Fernanda Monteiro a banda Dois em Um. Luís produziu inúmeros trabalhos entre discos, shows e trilhas (que não caberia citar aqui nesse post, mas mereceria um outro exclusivo). Dentre esses está o “Tudo está dito”, em que compôs junto com Bruno a faixa “Ave Mãe”. O Dois em Um participa também da última faixa, “Os pássaros não são nada fiéis”, com Fernanda Monteiro nos cellos e Luisão na programação. Recentemente, Bruno e Luís tiveram sua parceria na canção “Promessa” gravada por Janaína Fellini.

 

Sobre a amizade e o trabalho com Bruno, Luisão Pereira diz:

Bruno, o pássaro.

Aparentemente tímido, Bruno pousou em minha casa em 2011, trazia no bico um convite para eu dirigir e tocar no show do seu primeiro disco, ‘Cio’ (2010). Observando as canções dele percebi ali uma ave rara de canto único. E logo veio a nossa primeira parceria: “Ave maē”. A partir daí, consequentemente, começaram a surgir ideias pro segundo disco. Tudo foi conspirando a favor e, em 2014, chamei Domenico Lancellotti e Bruno di Lullo - que estavam vindo para Salvador tocar com Gal - e consegui juntá-los a Junix, montando assim um time dos sonhos para a gravação: toda a base foi registrada em apenas dois dias. Depois disto ficamos mais algum tempo na gravação de instrumentos adicionais, vozes e finalmente em 2015 o “Tudo está dito” nasceu.

Com este disco, o tímido pássaro abriu as asas e mostrou-se um poderoso pavão que voa ávido em direção à luz.

Bruno Capinan
Bruno Capinan
Bruno Capinan

 

Fotos: Pérola Mathias