A potência política latente entre a emissão do som e a formação da imagem

 9 de Setembro, 2015

A apresentação de Dror Feiler na Audio Rebel e um bate-papo com Cláudio Assis na Casa Daros

 

“O ruído é um dos elementos centrais na minha música. A abrasiva aspereza da música é uma tentativa de alterar como as pessoas ouvem. O ruído, enquanto som fora de seu contexto familiar, é confrontacional, afetivo e transformador. Tem um valor de choque e desfamiliariza o ouvinte que espera da música uma fluidez fácil, uma familiaridade segura ou algum tipo de suavização. Com isto, o ruído politiza o ambiente aural” – Dror Feiler, trecho retirado do site do FIME, SP (http://www.fime.art.br/pt/dror-feiler/)

 

 

Dror Feiler se apresentou no Rio de Janeiro em agosto, logo em seguida ao Festival Internacional de Música Experimental realizado pela primeira vez dias antes na cidade de São Paulo, organizado pelo Ibrasotope. Assisitir o israelense radicado na Suécia tocando na Audio Rebel foi uma experiência intrigante e extremamente impactante

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Feiler estudou música, interpretação e musicologia, toca saxofone, participou da banda de jazzLokomotiv Konkret e fundou a The Too Much Too Soon Orchestra. Feiler também compõe peças para orquestras e é um ativista de esquerda engajado na questão palestina. Filiado ao JIPF (Judeus pela Paz Israel-Palestina), uma organização fundada na Suécia depois do início da Guerra do Líbano em 1982, ele participa de diversas ações que confrontam o estado de Israel e lutam pela criação do estado da Palestina – muito de seu trabalho pode ser visto no seu canal do Youtube.  Enfim, estar em frente a um ativista do porte de Feiler, ali promovendo tal experiência sonora, me colocou no círculo do meu hoje, no centro do caos do mundo.

 

Antes de iniciar sua apresentação, Feiler discursou sobre o nosso dever de pensar a música politicamente, pois que a música não é um mero reflexo da nossa forma de organização, mas, ao contrário, ela é um meio de expressão que precede nossas mais altas elaborações cognitivas. Associou a música ao regime político vigente e, num breve histórico, da monarquia aos sistemas representativos, descreveu como mudanças determinantes não teriam se dado se a música não tivesse se transformado previamente: algo que Feiler descreveu com uma naturalidade e uma coesão que sou incapaz. Agora, hoje, no sistema de opressão em que vivemos, de democracias frágeis, fascismos travestidos de justiça e com toda sorte de absurdos sendo cometidos contra a vida e contra a convivência humana em nome do capital – do poder, da religião, de identidades, etc. - se não pudermos mudar a forma de fazer música, não conseguiremos mudar o “regime” (palavra usada por ele). E começou a tocar.

 

Dror Feiler levou-me a ver, na prática, aquilo que de modo meio obscuro e enigmático, mas totalmente imaginativo, Deleuze e Guattari postularam: a música como lugar de pensamento. O que estes autores diziam era que poderíamos apreender da experiência dos músicos contemporâneos uma transformação dos cânones filosóficos de produção de conhecimento, tendo aí um elemento político em seus atos de criação. Esta música contemporânea de que falam e de que tratamos é uma música experimental que opera sobre o problema do tempo. Um tempo que rompe com a continuidade, dissolve e se desprende da forma, antes causal e cronológica, e do entendimento como apriorístico à sensibilidade. Coincidentemente, esta informação novíssima para mim, que mal posso reproduzir porque ainda não conheço bem, eu havia aprendido dias antes no curso dado por Bernardo Oliveira, um dos nomes a frente do selo Quintavant, que realiza as apresentações no estúdio de Botafogo – um dos melhores lugares da cidade, é preciso se dizer.

 

A ideia política que Feiler nos passou naquela noite havia sido dita uns dias antes também pelo diretor de cinema Claudio Assis. Assisti uma mesa redonda da qual Assis participou na ocasião da apresentação do filme “Ventos de Agosto”, do cineasta pernambucano Gabriel Mascaro, na Casa Daros. Este filme de Mascaro sucede seu documentário “Doméstica” (2012) e é uma completa obra de arte. Um respiro sensível no cinema nacional – abordando um lugarejo do nordeste que desconhecemos, seu cotidiano, sua organização e suas questões, com uma fotografia linda, poética e um “quase humor” muito peculiar da vida real ficcionalizada. “Ventos de Agosto” nos transporta para um universo denso, lúdico e ao mesmo tempo muito real: o tal “Brasil profundo”. Assis e Mascaro fazem parte de um prolífico time de cineastas pernambucanos que tem se destacado com muito talento. Ao ser questionado sobre a força e o sucesso do cinema pernambucano hoje no Brasil, Cláudio Assis disse que a abertura conquistada pelo cinema deles*, na produção e na distribuição, em muito se deu pelo caminho aberto pela música: a explosão do manguebeat na década de 1990. E completou: sabe quando você pega um tambor (fazendo gestos como se ele fosse bater num gongo) e bate com toda força, o que acontece é que você ouve primeiro o som e depois vê o tambor tremer. Assis queria dizer que o som chega primeiro que a imagem – e alertou que isto não era uma metáfora, mas a ordem dos fatos. A música chega primeiro impactando, abrindo o caminho, dispensando mediação, como diziam os antigos estetas.

 

Entre Feiler e Assis, o som e a imagem que produzem, temos cabeças abertas a um novo pensamento sobre o mundo. O som que Feiler tira, mexendo em diversos instrumentos ao mesmo tempo, é uma clara construção escultural do tempo e do som que faz para seu público. Nos convida àquela suspensão do tempo regulamentar e a flutuar num espaço não menos real do que este, porém de outra forma percebido, sentido, vivido e realizado. E quando cessou sua apresentação, o zumbido no ouvido desta densa experiência preconizava que não existirá um “voltar” – já somos outros, escutamos outro som, sentimos outro tempo e todo o espaço se transformará de acordo com o que ali ouvimos e seguimos ouvindo-construindo. Nada mais político e potente, ativo, provocador.

 

Se os compositores contemporâneos engajados na música experimental, no combate ruidoso, estão mostrando-nos possibilidades formais e temporais de viver uma experiência e de absorver uma sonoridade, o elemento político explícito contido aí é que toda a nossa forma de organização está falida. A música experimental é o barulho do tambor que chegou aos nossos ouvidos, e já pressentimos a reverberação de seu tampo, mas ainda não sabemos como esta imagem será formada em nossos cérebros e como lidaremos com ela.

 

Um dos melhores shows que vi na casa, empatado com Micah Gaugh, que também me tirou do sério.

 

*Não posso deixar de dizer que, mesmo Pernambuco ofercendo-nos grandes títulos com direção de Claudio Assis, Lírio Ferreira, Gabriel Mascaro, Kleber Mendonça Filho e outros, Assis refutou a imagem de um “cinema pernambucano” – disse que fazem cinema para todo mundo, isso de rotular o cinema de “pernambucano” não existe. Polêmicas identitárias à parte (e agora também de gênero), com um jeito que parece desconexo de dizer o que pensa, Assis é dono de uma lucidez brilhante (ainda que não esteja esquecendo aqui do desserviço prestado ao empoderamento social das mulheres).