Thiago Nassif: Verão Sintético e o lançamento do disco Três pela Foom Music

6 de Fevereiro, 2018

O disco Três, de Thiago Nassif, que saiu em 2016 aqui no Brasil, será lançado e distribuído na Europa e nos Estados Unidos pela Foom, selo independente de Londres. Além de integrar o catálogo do selo no Bandcamp, o disco sairá em dois formatos por lá, CD e vinil.

No catálogo da Foom, Thiago Nassif está ao lado de músicos como Peter Gordon e Peter Zummo, ligados à cena da vanguarda musical novaiorquina da década de 1970 e 1980 (assunto que é meu tema de pesquisa e que não vou adentrar aqui neste post porque senão falarei sobre ele eternamente). Foi Ben Freeney, fundador do selo, que entrou em contato com Thiago para fechar a parceria. Como diz Thiago, de alguma maneira Freeney viu uma relação entre a música dele e a música destes caras ligados ao minimalismo e à experimentação eletrônica, que criaram um novo tipo de "art music" (Gordon, por exemplo, vinha do Mills College, onde estudou com Terry Riley). E a entrada de Thiago logo na Foom tem tudo a ver com seu trabalho, visto que Arto Lindsay é um de seus principais parceiros no Três, assinando a produção e algumas das faixas do disco - no qual toca também.

Thiago diz se identificar muito com os demais artistas do selo também porque o Três traz muito de música eletrônica e experimentação, ainda que aliado à ideia da canção. Caminho que ele tende a seguir em seus próximos trabalhos. Em conversa com o músico, ele contou que já começou o processo para gravar seu próximo disco, que novamente terá produção de Arto Lindsay e seguirá com as pesquisas eletrônicas, mas adotando um caminho mais sintético. Inclusive ele gravou algumas coisas com João Meirelles na passagem do músico baiano pelo Rio de Janeiro depois da apresentação de seu projeto solo e do Interregno Trio no Festival Novas Frequências de 2016.

O Três é um disco com muitas camadas sonoras, que explora muitos timbres e densidades do som, sobretudo na guitarra do próprio Thiago. E que alia esta pesquisa à poesia. Este foi o assunto de uma entrevista que realizamos com Thiago pelo Escuta/ em janeiro do ano passado. O material, que está sendo transcrito por Luís Capucho e Camilo Frade, logo deverá ser publicado pelo Núcleo da Canção da Faculdade de Letras da UFRJ (o Escuta é um projeto de Rafael Julião, que nesta edição contou com roteiro de perguntas meu e de Bruno Cosentino, que foi quem realizou a entrevista na ocasião).

Para o próximo disco, Thiago diz que vem pensando muito na construção de paisagens sonoras combinadas com ritmos funkeados, trazendo à tona as influências que tem de nomes como o Talking Heads e David Bowie, investindo num lance mais voltado para algo que fique entre o instrumental e as canções (precisamos pensar urgentemente a ideia da "canção expandida", de Wisnik e Nestrovski). Pois esta é a ponte na qual alia suas pesquisas sonoras à poesia. Thiago diz que tem criado muitas letras, mas que elas têm vindo antes das músicas e que, agora, ele se encontra no meio desse processo de misturar as duas coisas. Ele me contou que tem pensado a palavra em termos mais abstratos, como o seu aspecto estético e fonético, se preocupando não em contar uma história ou criar uma narrativa, mas fazendo com que cada palavra ou encontro de palavras signifique muitas coisas: “como um origami de ideias”, nas palavras dele - que é algo que já estava no Três também.

A ideia de Thiago é gravar o disco ainda no primeiro semestre e lança-lo até o final do ano. E aliado ao projeto do disco e de sua enorme pesquisa na música, Thiago tem dialogado também de maneira intensa com as artes plásticas (o que também foi assunto na entrevista do Escuta/), a dança e a performance.

Não só apresentando seu disco de 2016 e pensando o novo, Thiago circula bem pela cena da música independente do Rio de Janeiro e São Paulo, bem como tem somado projetos na música experimental. Hoje, dia 6/2, toca com Bartolo na Audio Rebel na apresentação “Verão Sintético”, que junta guitarras e sintetizadores. O encontro entre os dois, segundo Thiago, é uma forma de pesquisar ritmos e camadas sonoras, tentando descobrir uma fronteira entre o que é a máquina tocando e eles tocando, numa interação que busca, ali, desvendar uma espécie de personalidade da máquina em seus padrões que não se repetem, mas tem mínimas variações aleatórias. Além desse projeto, Thiago adianta que também tem pensado algumas coisas com Bella, juntando a pesquisa dela sobre a relação entre som e matéria e a sua pesquisa sobre som e espaço.

 

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(Cartaz: Lucas Pires)

Já no meio da música independente, além de tocar no próximo disco de Jonas Sá (que só deve sair ano que vem) junto com Ricardo Dias Gomes, Marcelo Callado, Thomas Harres, Pedrinho Dantas e Pedro Sá, Thiago produziu três discos que estão para ser lançados ainda neste primeiro semestre: o disco de Ana Frango Elétrico, o disco de André Sztutman e o disco de Lukash.

O disco de Ana Frango Elétrico, que já está pronto, mixado e masterizado, vai ser lançado depois do carnaval. Sua produção foi dividida entre a própria Ana, Thiago, Marcelo Callado, Guilherme Lírio e Gustavo Benjão. Segundo Thiago, o disco mostra toda a originalidade de Ana, sua facilidade de compor e cantar, misturando o universo da poesia e da música, num espectro enorme de influências e sonoridades. Além de juntar gerações diferentes da música do Rio de Janeiro - e acho que vale segurar um pouco estas informações para quando o disco sair.

O disco Venta de Lukash ainda vai sair, mas o primeiro single, Super Lua, já está rolando. O disco foi produzido por Marcos Campello, que além de ter feito os arranjos, toca os sinths e soma sua guitarra com a de Thiago.

Por fim, o disco de André Sztutman também está para ser lançado e foi produzido pelo próprio André, que também é artista plástico, por Thiago e Eduardo Camargo.

Ainda teria muito para falar dos últimos trabalhos de Thiago Nassif, sobretudo os em parceria com Arto Lindsay (assunto que também foi tópico na última entrevista que fiz com Lindsay em dezembro de 2017 para a tese). Mas a ideia deste texto era mais anunciar a incrível parceria do músico com a Foom, falar um pouco dos projetos que Thiago está participando (e são muitos!) que vão ser lançados por agora e, sobretudo, deixar o convite para a apresentação de hoje na Audio Rebel, às 20h. Apareçam no show. Escutem o Três. Saquem o catalogo da Foom. Aguardem o próximo disco de Thiago, que vai ser pedrada, com certeza.

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(Ensaio para o show com Jonas Sá e Arto Lindsay em dezembro de 2017)